segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Dias Frios


Era bem possível que aquele fosse só mais um dia frio. Aliás, parecias que naquela cidade todos os dias eram frios. Pelo menos era assim que ela se lembrava. Todas as suas grandes memórias eram de dias frios como aquele. De certa forma, o inverno engolia todos os dias calorosos de verão e deixava apenas os frios, chuvosos e cinzentos.
Para quem via de longe, tratava-se apenas de uma garota tímida e retraída fazendo uma grande faxina no quarto. É que ela era tão silenciosa, tão quieta. Tão cinza. Provavelmente foram os dias gelados em sua memória que a deixaram daquele jeito. Uma garota cheia de nuvens que quase nunca era notada. Quase, porque sempre existe uma ou outra pessoa que admira os dias nublados. Mas ela, coitada, nunca teve um dia sequer de chuva torrencial. Era como uma eterna garoa tímida.
Já do ponto de vista dela, era dia de tormenta. Com todos os seus gestos calmos e sem pressa, ela fazia uma tempestade dentro de si. Cansou-se dos dias sem vida. Era hora de mudar as estações. Então, com toda a ira de sua delicadeza, cuidadosamente jogou tudo dentro de uma caixa. Se despedia de suas roupas sem graça, de suas cores apagadas. Limpou as estantes, a mesa o guarda-roupas, a cama e mandou tudo embora. Inclusive, as fotos dos dias miseráveis que tanto a fizeram sofrer.
E quando não sobrou mais nada, quando a tinta das paredes que ela mesma acabara de pintar começou a secar, a chuva parou. O sol começou a aparecer bem devagar por detrás das nuvens. Ela abriu a janela, soltou os cabelos e sorriu tão levemente que todos puderam sentir o calor que começava a fazer. Claro, que ainda não era aquele calor que se faz no Carnaval. Era uma coisa tão suave quanto ela, algo tímido e corajoso. Algo como aqueles ventos que sopram no início da Primavera.
E foi assim que ela começou a florescer. Como quando a noite fria começa a ceder lugar para um dia quente, quando o vento seco começa a trazer o cheiro da chuva, como a enorme força que as flores fazem para desabrochar. Foi uma coisa tão meiga e tranquila, que nem de longe alguém poderia prever o que estava acontecendo. É que pouca gente sabe, mas é assim que acontecem as grandes mudanças: bem devagar e de dentro para fora.

2 Comentários:

Eduardo P. Fernandes disse...

"É que pouca gente sabe, mas é assim que acontecem as grandes mudanças: bem devagar e de dentro para fora."

Perfeito! =)
Concordo plenamente com essa frase...

Bjs...

Renata Chiletto disse...

Aim
Que perfeito *-*

Amei

bjoo