terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Mais que uma Canção de Amor

Fazia dias que ele não conseguia compor nenhuma música. Pegava o violão, caderno e caneta, mas só ficava fitando as cordas paradas. Não sabia mais escrever. As palavras passavam por sua cabeça soltas e quando ele as colocava juntas não faziam sentido algum. As notas... essas então nem vibravam. A tristeza devia acabar com sua inspiração, pensou.
Desistiu por enquanto. Guardou o violão, afastou o caderno e deitou. Deitou fitando o teto. Quantas sombras podiam existir ali? Elas desciam até ele e faziam piadas mórbidas em seus ouvidos. Jogou o travesseiro no rosto na tentativa de afastar os fantasmas. Precisava de um tempo para digerir o que havia acontecido. Sua namorada e seu melhor amigo. Seu ex-melhor amigo e sua namorada. Seu melhor amigo e sua ex-namorada...
-  Merda.
Até pensou em escrever uma canção cheia de palavrões. Mas eles não valiam a pena. E além do mais ele não conseguia escrever nada. Lhe disseram uma vez que as melhores poesias vinham de grandes sofrimentos. Então das duas uma, ou ele não sabia ser poeta ou nunca aprendeu o que de fato era sofrer. Mas a verdade mesmo, é que ele era melhor na alegria. Vai ver nasceu do avesso. Vai ver os canhotos são assim e, em um mundo onde os destros são maioria, ninguém sabia ainda que os canhotos viviam ao contrário.
Estava envolvido em seus estranhos pensamentos sobre o fato de não conseguir usar a mão direita tão bem quando o celular tocou. Levou um tempo até que atendesse, mas quando viu a foto dela fazendo careta, atendeu sorrindo.
Se conheciam desde crianças. Suas mães eram vizinhas e eles deram os primeiros passos juntos.
-  Você ainda tá mal? – ela perguntou.
-  Um pouco.
-  Eu posso ir aí?
-  Não.
-  Mas eu já estou na porta.
Eles desligou o celular logo que a viu pela janela parada em frente ao seu portão. Ela também estava triste. Foi buscá-la na entrada.
-  Problemas em casa de novo? – ele arriscou.
-  Sabe como é...
Subiram para o seu quarto e sentaram-se em sua cama.
-  Quer conversar? – ele perguntou.
-  Não – elas respondeu – E você?
-  Também não.
Ela pegou o violão e deu para ele. Depois pegou o caderno e colocou em seu colo. É bom ter companhia quando a gente não se sente bem. Sempre soube que podia contar com ela. E ela sempre soube que o teria por perto. Eram tão íntimos que não precisavam das palavras para se entenderem. Ela começou a escrever uma música e ele quase sentiu inveja da capacidade dela de transformar tudo aquilo em canção. Mas, sabe, ela era destra. Devia ser essa a explicação. Magicamente ele compôs uma melodia e não demorou para que os dois juntos começassem a cantar a música que falava sobre quanto tempo levaria para um casal de amigos perceber que aquele tipo de amizade tinha outro nome

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Cuidado ao Pisar


Você não pode simplesmente espiar dentro de mim. Se você não percebe as coisas como os outros a percebem, então, você não tem o direito de saber o que está acontecendo. Não ouça minhas conversas escondidas, não leia meus diários, não faça perguntas aos meus amigos. Se você não percebe, então, não tem o direito de saber. Se você não tem a capacidade de chegar e me perguntar o que está acontecendo, se mesmo quando eu estou sorrindo você não é capaz de ver as lágrimas que escorrem em meu rosto, se mesmo em meio ao meu riso você não percebe o desespero em meu olhar... então você não merece mesmo saber o que está acontecendo.
Quem não percebe o que existe em um olhar, nunca será capaz de entender palavras. Existe uma diferença muito grande entre dizer que se importa e realmente se importar. Normalmente as pessoas só pensam em como foram magoadas, mas esquecem que estão, ao mesmo, tempo machucando outras pessoas. Devemos tomar cuidado ao caminhar, pois existem muitos sonhos espalhados pelo chão e se quebramos um ao pisar... Bom, o que foi quebrado não tem mais conserto.
Pedir perdão não conserta as coisas, o recomeço não existe e se você não quer que algo seja destruído, então ande com cuidado. Porque o que passou não volta mais. Não sou a mesma pessoa que foi embora aquele dia e, ao mesmo, eu sou exatamente a mesma pessoa daquele dia. Se daquela vez você não viu o que estava estampado em meu rosto, então não pense que hoje, será diferente. Eu tenho os mesmos sorrisos e muitas lembranças dolorosas. Então não pense que tudo voltará ao normal, porque o normal, meu bem, nunca existiu. Não queira que eu perdoe tudo o que passou. Não me entenda mal, eu quero perdoar, é só que essas coisas levam tempo. E mesmo que eu perdoe, não pense que esquecerei...
Essa valsa eu não danço mais.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011


Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
Mas parece que as pessoas se esquecem disso.

domingo, 11 de dezembro de 2011

O Poema

Ele a entregou um poema e uma flor. Ela sorriu sem jeito e corou. Ele olhou para ela tímido e a esperou ler o poema. Ela sentiu um frio na barriga. Eles se olharam. Ele questionou, ela baixou a cabeça e não respondeu. Ele esperou uma resposta que não veio. Ela não encontrava palavras. Ele baixou a cabeça e se calou. Ela abriu a boca e nada falou. Ele sorriu triste. Ela sorriu preocupada. Ele se levantou e se despediu. Ela deixou ele seguir uns instantes e depois foi atrás dele.
- Eu esqueci de agradecer - ela disse tocando o ombro dele.
- Não precisa - ele respondeu virando-se e olhando para ela.
Ela desejou um sorriso dele. Ele desejou o amor dela. Mas ela não sabia amar, ainda. Ele disse que a ensinaria. Ela não respondeu. Ele foi embora, ela ficou. Ele deixou poema e flor. Ela deixou dor. Ele foi levando as esperanças dela. Ela ficou com as dores dele.
O vento soprou forte e arrancou das mãos dela o poema dele. Ela foi atrás e não o alcançou. Ele já tinha ido embora. Ela ainda continuou procurando o poema perdido. Ele decidiu voltar - pensar, pôr a cabeça no lugar. Ele a reencontra parada no mesmo lugar que estava quando ele havia ido embora. Ela devolve a flor a ele e diz que perdeu o poema. Ele diz que não tem importância e ela chora. Ele não entende nada. Ela também não. Ela pede perdão. Ele a abraça.
Venta de novo e ela continua a chorar. Ele diz que não vai embora até que ela pare de chorar.
- Eu te escrevo outro poema - ele diz.
- Não precisa - ela responde.
Por que ela chorava?
É que ela tinha perdido o poema e o que ela reencontrou foi o autor.



sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Duas vezes e meia


Desde você eu não me apaixonei de novo. Nunca mais. Te amei duas vezes e meia. Primeiro era só um frio na barriga, alguém com quem eu gostava de falar. Depois você me beijou. E nem era de língua. Daí eu gostei e quis ver no que dava. Eu não podia, mas eu queria. E quis. E então eu te beijei. Nem lembro em que lugar foi. Eu disse que sim, você disse para sempre. Andávamos de mãos dadas, dávamos loooongos abraços apertados. Mas nunca assistimos filmes em dia de chuva e um dia do seu beijo eu deixei de gostar. Mas não de todos, só de um. Um que não teve jeito. Não dava para levar. E então nos separamos. Eu vim para cá, você foi para lá. Eu fiquei sozinha. Você ficou... Você não ficou nada! Você andou. Viveu, me deixou rápido demais. Então eu vi. Vi você beijando aquela outra garota. Eu não sentia mais nada por você. Pelo menos posso dizer isso se considerarmos que ciúme é nada. De cara não gostei dela. Sorridente demais, não fazia o seu tipo. Boba, sem futuro e quer saber? Feia. Tá, ela não era feia, mas eu não queria saber. E você ainda me apresentou a ela, né? Sorri. Claro que sorri. Sou educada e nesse dia também fui falsa. Fingi que não ligava. Nem para você, nem para ela. Dei as costas e decidi viver. E vivi! Fique sabendo que vivi. Sozinha, mas vivi. E que surpresa, senhoras e senhores, vejam só o que aconteceu. Ela partiu seu coração em vários pedaços e sabe para quem você ligou? Para mim. Sim, porque eu era a única que podia colocar os caquinhos no lugar. Me deu tanto trabalho te juntar, só para vir uma qualquer e bagunçar tudo o que eu arrumei. Mas tinha coisa diferente... é que... bom... eu aprendi a viver sem você. E a culpa foi sua! Quem mandou me deixar? Te coloquei de novo no lugar, você estava bem, sorridente e... quase tentou me beijar de novo. Mas dessa vez eu não quis, não foi? E ficamos assim, sendo amigos. Mas sabe o que eu odeio? É que desde você eu não me apaixonei de novo! Justo eu que amo o amor só pelo fato de poder amar! Justo eu que vejo poesia nas flores, que se encanta com um sorriso e que cai de paixões por quem me dá um pouco de atenção! Justo eu regida por Vênus não voltei a me apaixonar. E agora o quê? Agora nada. Pensa bem nessa história... eu disse que te amei duas vezes e meia, mas só contei duas histórias. O que será que falta? O que falta é a gente se beijar, mutuamente. Primeiro você me beijou, depois eu te beijei e quando será que vamos nos beijar? Opa. Acho que estou entregando a história antes do final do livro. Eu não disse que eu queria que a gente se beijasse de novo... Bom... pelo menos eu acho que não.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

A Cidade Perfeita

Acabaram-se os medos
Os perigos, os desatinos.
As pessoas nessa sociedade não brigam.
Nunca.
Tudo é organizado, todos são cordiais e educados.
Não existe mais policiamento, pois não existem mais bandido
Homicídios, furtos, sequestros, assaltos, estupros...
Tudo isso ficou no passado,
Nas páginas manchadas dos jornais.
Aliás, jornal também que não existe mais.
Só o do partido,
E nele só se encontra as coisas boas sobre o governo
E a nova cidade perfeita que ele criou.
Aqui nessa cidade não existem pragas,
Não existem ratos, ervas daninhas,
E quando alguma comida chega a apodrecer
É logo eliminada.
Aqui não existe nada imperfeito.
Os carros não têm buzinas, pois isso já não é necessário
As escolas não têm muros
As casas não têm portas
Pois com tanta tranquilidade tudo se fez sem utilidade.
As mães andam nas ruas sem precisar segurar as mãos de seus filhos pequenos
Pois eles são perfeitos demais para saírem correndo.
Os vidros não se quebram com bolas de futebol
Não existem lágrimas,
As bonecas foram esquecidas,
Pois em uma sociedade perfeita nada disso possui significado.
Não existe mais o errado,
Pois o certo é senso comum e ninguém nunca erra.
Não existem borrachas,
Os teclados não possuem a tecla delete
E nas portas não existem tapete
Pois a sujeira deixou de existir, assim como o erro.
Tudo o que existe aqui são pessoas perfeitas
Vivendo em um mundo perfeito
Onde quem canta o samba é o partido.
Aliás, samba não, porque nem mesmo eu sei
Que tipo de música pode existir em uma cidade assim:
perfeita.