Fazia dias que ele não conseguia compor nenhuma música. Pegava o violão, caderno e caneta, mas só ficava fitando as cordas paradas. Não sabia mais escrever. As palavras passavam por sua cabeça soltas e quando ele as colocava juntas não faziam sentido algum. As notas... essas então nem vibravam. A tristeza devia acabar com sua inspiração, pensou.
Desistiu por enquanto. Guardou o violão, afastou o caderno e deitou. Deitou fitando o teto. Quantas sombras podiam existir ali? Elas desciam até ele e faziam piadas mórbidas em seus ouvidos. Jogou o travesseiro no rosto na tentativa de afastar os fantasmas. Precisava de um tempo para digerir o que havia acontecido. Sua namorada e seu melhor amigo. Seu ex-melhor amigo e sua namorada. Seu melhor amigo e sua ex-namorada...
- Merda.
Até pensou em escrever uma canção cheia de palavrões. Mas eles não valiam a pena. E além do mais ele não conseguia escrever nada. Lhe disseram uma vez que as melhores poesias vinham de grandes sofrimentos. Então das duas uma, ou ele não sabia ser poeta ou nunca aprendeu o que de fato era sofrer. Mas a verdade mesmo, é que ele era melhor na alegria. Vai ver nasceu do avesso. Vai ver os canhotos são assim e, em um mundo onde os destros são maioria, ninguém sabia ainda que os canhotos viviam ao contrário.
Estava envolvido em seus estranhos pensamentos sobre o fato de não conseguir usar a mão direita tão bem quando o celular tocou. Levou um tempo até que atendesse, mas quando viu a foto dela fazendo careta, atendeu sorrindo.
Se conheciam desde crianças. Suas mães eram vizinhas e eles deram os primeiros passos juntos.
- Você ainda tá mal? – ela perguntou.
- Um pouco.
- Eu posso ir aí?
- Não.
- Mas eu já estou na porta.
Eles desligou o celular logo que a viu pela janela parada em frente ao seu portão. Ela também estava triste. Foi buscá-la na entrada.
- Problemas em casa de novo? – ele arriscou.
- Sabe como é...
Subiram para o seu quarto e sentaram-se em sua cama.
- Quer conversar? – ele perguntou.
- Não – elas respondeu – E você?
- Também não.
Ela pegou o violão e deu para ele. Depois pegou o caderno e colocou em seu colo. É bom ter companhia quando a gente não se sente bem. Sempre soube que podia contar com ela. E ela sempre soube que o teria por perto. Eram tão íntimos que não precisavam das palavras para se entenderem. Ela começou a escrever uma música e ele quase sentiu inveja da capacidade dela de transformar tudo aquilo em canção. Mas, sabe, ela era destra. Devia ser essa a explicação. Magicamente ele compôs uma melodia e não demorou para que os dois juntos começassem a cantar a música que falava sobre quanto tempo levaria para um casal de amigos perceber que aquele tipo de amizade tinha outro nome




