domingo, 16 de outubro de 2011

Duas Vezes


Ela encostava a cabeça em meu ombro e respirava calmamente. Era desse jeito que eu desejava ficar para sempre. Nunca ninguém havia correspondido aos meus sentimentos antes e foi durante os meus 20 anos que eu entendi porque haviam tantos poemas de amor. Ela era totalmente perfeita para mim e eu não acreditava que não existisse mais ninguém no mundo que não gostasse dela do mesmo jeito que eu. Não era possível.
Naquele dia não estávamos fazendo nada especial, muito menos romântico. Estávamos assistimos televisão no sofá da minha sala. Não lembro o que estava passando, pois para dizer a verdade eu estava tão feliz que não prestava atenção em mais nada. Aquilo não podia ser verdade. Por que diante de tanta gente no mundo ela iria escolher justo um cara como eu? Eu sempre fui um bobão.  Eu sou mimado e nem sei me vestir sozinho sem ficar parecendo um mendigo. Uso o carro dos meus pais que deve ser mais velho do que eu. Sou tão tímido que nunca conseguia conversar direito com uma garota. Para dizer a verdade a única garota com quem eu conversava era ela.
Na verdade mesmo, foi ela quem começou a falar comigo. Ela é desses tipos que fazem amizade até quando não quer. Ela é bonita, divertida, cheia de amigos e... totalmente o oposto de mim. E é justamente por isso que eu não entendia porque ela estava comigo. Eu sou tão patético que quem começou esse relacionamento nem fui eu. Foi ela que deu o primeiro passo, até porque eu sou inseguro demais para acreditar que alguém poderia estar interessada em mim.
Foi em uma tarde chuvosa bem diferente dessa de hoje. Estávamos na faculdade e só nos encontrávamos no almoço, pois fazíamos cursos diferentes. Lembro que terminamos de almoçar e começamos a ir em direção as salas dela quando a chuva caiu. Eu quis correr para que a gente não se molhasse tanto e ela disse que a gente podia sentar em um lugar coberto e esperar a chuva passar, não tinha problema perder aquela aula. Sentamos em um banco perto do restaurante universitário mesmo. Ela começou a conversar sobre coisas bobas. Besteiras eram as únicas coisas que sabíamos falar. Tudo eram piadas sem graças e suposições malucas de um mundo que não existia e ela sempre ria dessas coisas sem sentido. Eu ria por causa dela.
Depois de um tempo a chuva engrossou e o toldo onde nos escondíamos rasgou. Ficamos encharcados. A água estava gelada. Ela ria como uma maluca e disse que nós tínhamos muita sorte mesmo.
-  Sorte? Isso deve estar nos mais altos níveis da escala do azar! – eu respondi.
Então ela ficou séria, me olhou nos olhos e disse:
-  Você não acha que tem sorte por estar aqui comigo nesse momento?
O tom da voz dela era suave apesar de sério e aquilo me pegou tão desprevenido que eu não sabia o que dizer. Primeiro fiquei confuso e depois achei que ela estava brincando. Então ela perguntou de novo:
-  Você realmente acha que é um azar estar aqui comigo?
-  Não. Eu acho que eu tenho um pouco de sorte por ter conhecido você...
E então ela me beijou. É sério, ela me beijou. Sei que o ideal seria ser ao contrário, mas eu jamais poderia acreditar que uma garota daquelas poderia se interessar por um cara como eu. Levou um tempo até que eu aprendesse a me comportar perto dela. Normalmente eu ficava nervoso e falava coisas sem sentido ou derrubava coisas pelo caminho ou então fazia tudo isso ao mesmo tempo. Mas ela sempre foi calma e me mostrava o sorriso mais lindo do mundo, o que acabava me deixando ainda mais bobo. E era apenas quando eu a abraçava que eu sentia o quanto aquela pessoa se encaixava bem comigo. Esses eram os momentos em que eu percebia o quanto ela era pequena e quão frágil ela parecia. Nesses momentos eu deixava de me sentir o nerd ridículo que eu era e sentia que eu poderia sim ser importante para alguém como ela.
É como nesse exato momento. Estamos abraçados no sofá e eu não me sinto o babaca que eu sempre fui. É como se a pessoa mais importante do mundo, além de ter me presenteado com o seu amor, ainda tivesse me mostrado que de alguma forma eu também era importante. No fim, acho que ela só me ensinou a amar duas vezes. Amar a pessoa mais maravilhosa que eu já conheci e... amar a mim mesmo.

4 Comentários:

Eduardo P. Fernandes disse...

Ahhhh... que legal! =)
É interessante como existem pessoas no mundo que conseguem fzr a gnt se sentir melhor, neh?! *-*

Belo texto...

bjs...

Renata Chiletto disse...

Que texto lindo Alanna.
Tão romântico... Tão maravilhoso... Tão único.

Adorei

Moisés Wesley disse...

Excelente texto! Sem dúvida, muito envolvente!
Achei muito parecida com minha história de vida, mas sem a garota (ainda espero por ela) rsrsrs

SolBarreto disse...

Qualquer semelhança é mera coincidencia? rsrsrs
É engraçado como tem tanta gente que se sente assim ne patetico e fora de tom...eu pensava que isso era coisa da adolescencia e que passaria rsrs mas a verdade e que as vezes ainda me sinto assim...e percebo que as vezes é bem mais facil e simples amar o que você ve do que se amar e se perdoar...