quinta-feira, 3 de março de 2011
Por favor, Perturbe
O que se quer é ser importante. Todos querem ser importantes, pelo menos um pouco. Todos querem ser desejados. Querem que sintam sua falta. Querem pelo menos saber que são sentidos.
Foi como se tivesse sido importante de novo. Aquela roda de pessoas em sua volta. Fazia tempo que não chamava atenção. Passava todos os dias atrás de uma pilha de arquivos. Saía do trabalho para casa sem ser notada. Apenas a máquina de ponto a conhecia. Era quase invisível. Quem ainda perdia tempo telefonando era o telemarketing. Boa pagadora até, mas suas contas sempre eram pequenas.
Um dia deixou os documentos atrasarem. As pilhas no escritório ficaram enormes, todos corriam de um lado para outro procurando seu papeis. Logo iriam dar-lhe uma bronca. Esperou o momento que o chefe entraria louco na sala. Nada veio. Nem o chefe, nem um aviso, advertência ou bilhete. Era como se realmente não existisse. Sentiam falta dos papeis, não de quem os entregava. É provável que nem soubessem que havia um encarregado para tal tarefa.
Não lembrava quando havia se tornado invisível. Procurou na mente, mas não achou nada. Tentou lembrar os dias diferentes, os anos dourados. O que surgiu na memória foi um bolo confeitado e a família ao seu redor. Todos batiam palmas e sorriam, enquanto ela via aquelas chaminhas dançando em sua frente esperando pelo momento de serem assopradas. Deixou de ser insignificante, agora todos a olhavam e ela sorria.
Era quente o sabor da popularidade. Doce como a calda de morango daquele bolo. Poderia facilmente se acostumar. Sair com amigos, namorar, receber um copo de café no trabalho. Ser invisível tem suas vantagens. Ninguém para perturbar. Viver sem regras, afinal ninguém está vendo o que se faz. E que graça tem esconder algo quando ninguém se preocupa com isso?
Sua vida era uma quietude desnecessária. O silêncio lhe acompanhava aonde estivesse. Ou o barulho simplesmente passava por ela como se não a notasse. Ela entrava e saía ser vista, sem ser sentida. Não incomodava ninguém. Estava longe disso na verdade.
E agora estava visível. Até na TV poderia sair. Nunca tinha se imaginado na TV. Para que tudo isso? Exagero. Não tem nada demais em querer levantar vôo. Era como em um sonho. Basta fechar os olhos para saber que em breve seu corpo ficará leve.
"Acho que vocês estão exagerando. Não tem nada demais, eu só quero..." e pulou.
Foi uma cena comovente. Chocante. Todos comentaram, mas ninguém sabia quem era a moça. Muito menos porque ela havia feito o que fez.
- Pobrezinha... tão jovem! Com a vida tranquila que devia levar, quem poderia entender?
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1 Comentários:
Adorei o texto, de verdade.
a cada dia você escreve melhor. :]
Beijos, bonitona.
s2
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