Correu tudo que seus pés conseguiam. Os cabelos jogados ao vento e os olhos fechados. Sabia que era loucura correr assim, mas queria ver o vento. Sabia que ele era invisível, mas também sabia que a imaginação via tudo.
Ouvia o barulho dos próprios passos. As folhas sendo pisadas, galhinhos de árvore sendo quebrados. Descalça, sentia cada pedaço do chão. A areia coçava-lhe os dedos e ela sentia cócegas. Ria. De repente o mundo parecia seu melhor amigo.
Tudo poderia ter vida se ela quisesse. E ela sabia disso. Continuou correndo como louca, com os olhos fechados, os braços abertos e um enorme sorriso.
Ouviu a voz de um velho. Virou a cabeça e viu ao seu lado um senhor muito idoso correndo também. Só que os pés dele não tocavam o chão, achava que nem tinha pés na verdade. Ele tinha os cabelos muito grandes e brancos com cachos na ponta. Uma barba comprida. Ele olhou para ela sério e ela gritou:
- Senhor Vento! Eu sabia que viria!
Ele sorriu para ela, assim como um avô sorri para seu neto e passou em sua frente soprando forte. Ela sempre soube que ele existia. Começou a correr ainda mais rápido desejando alcançá-lo. Ele parou em sua frente e abriu os braços. Ela sorria ainda mais e se jogou naquele abraço carinhoso. Ele a abraçou e ela passou através dele.
Sua mãe já tinha lhe dito, não tem como pegar no vento. A gente só sente. E ela caiu esparramada na grama. Com o tombo riu ainda mais. Virou o rosto para o céu e abriu os olhos. Deu um suspiro muito grande e ficou olhando as nuvens. Correr cansa tanto. Parecia que a qualquer hora pararia de respirar. Seu coração batia tão rápido que parecia que ia fugir. Gotinhas de suor começaram a escorrer do seu rosto.
Ela fechou os olhos de novo e não quis mais abrir. Estava começando a sonhar um sonho gostoso, daqueles que nem dá vontade de acordar.
Por ali detrás das árvores o velho só observava a menina estendida na grama. Tão inocente ao mundo, tão doce... Bem devagar ele se aproximou para vê-la melhor. Levantou a franja da menina e com uma brisa suave beijou-lhe a testa. Afastou-se novamente, sorriu e acenou um tchau que não fora visto por ninguém.
Ela continuou deitada imóvel e sorrindo. Um sorriso daqueles que são tão curtos que duram para sempre.

3 Comentários:
Como é delicioso sentir o vento, né?! *-*
Beijos!
Quero mais textos seus! *-*
Bjs...
Ah, eu tbm persigo o vento de vez em quando! rsrsrs
O Eduardo tem razão, é muito bom mesmo!
Adorei o texto!
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