A morte é uma coisa mesmo assustadora. Ela está o tempo todo ao nosso redor, nós sabemos disso, mas nunca estamos prontos para ela.
Lembro da primeira vez que me deparei com a morte. Eu estava no jardim III e tinha um colega que sempre ia de boné porque era careca. Mesmo sendo pequena, na época eu já sabia que aquilo era sintoma de quimioterapia. Meu coleguinha tinha câncer e um dia ele não foi para a escola. A tia nos reuniu explicou o que aconteceu e nos pediu para escrever cartinhas. Ele nunca mais voltou para a escola, eu nunca mais o vi, mas até hoje tem uma fotografia dele aqui em casa com seu boné azul, em um dos meus aniversários.
Eu não sei se foi naquele dia que eu aprendi o que era a morte ou se já sabia o que ela era antes daquilo. Não lembro se senti saudades...
Os anos se passaram e lembro de uma vez meus pais terem me deixado em casa para ir a um velório. Uma senhora da rua tinha morrido. Eu não sabia ainda o que era isso, mas sabia que nunca mais a veria. Ela nunca mais iria varrer as folhas da calçada pela manhã.
Não lembro quando foi que eu aprendi o que era a morte.
Acho que deve ter sido na Sessão da Tarde... Lembram do filme "Meu Primeiro Amor"? Deve ter sido através dele que eu entendi a morte. Eu sabia que as pessoas iam morar com Deus e que não voltariam nunca mais. As pessoas ficavam tristes, choravam e reviviam os valores da outra que tinha ido embora. Eu sabia o que era a morte, mas ainda não tinha entendido
como ela era...
Até que nas férias de 2002 ela veio visitar minha prima. Foi a tarde mais longa da minha vida. Eu me recusava a acreditar e gritava com quem tentava me explicar que ela tinha morrido no acidente. Era uma quinta-feira e o sol deve ter levados umas 48 horas para se pôr. Lembro da minha outra prima chorando atrás de uma árvore, da minha tia - a mãe dela - sendo carregada pelas minhas outras tias, meu avô sentado imóvel no sofá como se também tivesse morrido... mas para mim era tudo mentira. Até que minha mãe me mandou arrumar as malas para que voltássemos a Brasília para o enterro. Foi a primeira vez que a morte doeu.
Em seguida aconteceu em 2005. Meu tio, pai dessa minha prima, estava doente e estava na UTI. Eu o visitei um dia, conversei com ele. Falei que já tinha começado as aulas de teclado. Esperava que ele me ouvisse. Dizem que o coma mantém a consciência da pessoa. Depois disso fui embora e para me distrair me levaram a uma festa. Durante a festa um celular tocou e de novo minha mãe veio me avisar que a morte havia chegado. Acho que dessa vez, doeu até mais. Meu tio que tinha me acolhido em Brasília como a segunda filha dele. Meu tio que me visitava a noite para desejar boa noite também havia ido embora. E a única coisa que me consolava era saber que finalmente ele tinha alcançado descanso, pois há anos sua alma já estava meio morta mesmo. Até hoje escuto sirenes tocando de madrugada em noites chuvosas. Ele era policial civil e meio palhaço. Então em noites de ronda, ele passava na porta da minha casa e ligava a sirene bem alto.
Hoje acordei meio cedo. Meu irmão tem vestibular daqui a pouco. Resolvi mexer na internet, entrei no orkut e lá estava o recado de uma amiga dizendo que um amigo meu também foi embora. A morte também chegou para ele. E eu não sei como foi! Nem sei quando foi! Mas o orkut dele me disse que já tem alguns dias. Me parece que desde de 15 de dezembro, mas não tenho certeza. Ele fazia Direito na UnB e tinha sonhos que uma vez compartilhou comigo. A última vez que o vi foi correndo. Ele ia fazer uma prova e eu estava atrasada para uma aula. Nem um abraço nos demos. Ou talvez demos, mas foi rápido demais para uma despedida. Talvez tenha sido melhor assim. Um dia a gente se reencontra. O que eu gosto na religião é o conforto que ela nos oferece. Acreditar que um dia me reencontrarei com todas essas pessoas em uma situação ainda melhor é o que não me deixa sofrer tanto.
Quando eu era pequena li um livro sobre morte. A gata de uma menina morria e surgiu o seguinte diálogo:
- Vovô, a morte dói?
- Só nos que ficam.
Então que a morte seja também uma forma de
alívio. Mais do que um adeus.
Wendell, sinto muito sua falta e gostaria de te falar isso um dia. Desculpa por não ter ido ao velório (eu só soube hoje da sua partida) ou por nunca ter dito o quanto você era importante para mim.
Wendell já foi citado antes nesta postagem:
Tempo de Deus.
Paz para todos e lembrem que a vida é efêmera. Curta, passageira.