Foi alguém de tamanha importância, que é até estranho pensar que já houveram dias em que eu não lembrava de sua existência. Alguém que eu tanto amei.
Estou com saudade dos dias de ternura. Dos olhares provocativos, das brincadeiras sem graça. Estou com saudade da saudade que eu sentia toda vez que nos despedíamos. E mais saudade ainda do telefonema assim que chegava em casa, das conversas na madrugada, de todos os nossos segredos.
Estou com saudade das cartas que rasguei, das fotos queimadas, das páginas arrancadas do diário, daquele nosso beijo que nunca contamos para ninguém. Dos sorrisos, dos abraços, do calor nas bochechas da primeira vez que ele me olhou nos olhos e disse o que sentia. Sinto saudade de toda aquela sinceridade chocante que tínhamos um com o outro.
Éramos cúmplices o tempo todo. Até quando nos desentendíamos. Normalmente, era ele quem brigava comigo, e depois, todo arrependido, me ligava pedindo desculpa, dizendo que me amava. Eu nunca me importava. Sabia que no dia seguinte iria acontecer metade daquilo de novo.
Sinto saudade das promessas que fizemos. E foram todas verdadeiras. Não quebramos nenhuma delas. Engraçado perceber isso tanto tempo depois. Éramos tão jovens, mas maduros o suficiente para não prometermos o que não podíamos cumprir. Como aprendemos? Não sei. Nós apenas éramos assim. Ridiculamente perfeitos um para o outro.
Então por que tudo acabou? Porque a vida quis assim. Não brigamos. Nos abraçamos apertado chorando. Prometi mandar cartas, ele prometeu telefonar. Enviei mesmo a carta, ele ligou mesmo. Mas, éramos absurdamente maduros para nossa idade e sabíamos que a distância tinha estragado tudo. Foi assim que acabou.
Acho que o relógio marcou meia-noite e não havia nenhum sapato de cristal, nem de couro, nem de nada. Nós apenas seguimos o ritmo da vida. Hoje não sei onde ele está, nem o que está fazendo ou com quem.
Sinto saudade da grandeza daqueles sentimentos, das longas horas daqueles dias tão curtos.
Tudo levou o tempo que deveria levar para acabar bem. Nos conhecemos, nos amamos, nos afastamos, superamos. E Por que eu ainda estou com saudade? Acho que é porque é assim mesmo. Afinal, do primeiro amor a gente nunca esquece.



